Gerações
Thiago tinha nove anos. Cursava a terceira série do ensino fundamental, no período da tarde. Todo dia quando saia do colégio, ia na Lanchonete do Tião, lugar popular, onde Thiago, seus amigos, e a maioria dos garotos do bairro iam, para se fartar com cachorro quente e beber uma tubaína gelada. Tião era um senhor com aproximadamente sessenta anos, simpático, sempre conversava com a turma de Thiago, as vezes dava uma rodada de tubaína para eles por conta da casa. Ninguém tinha coragem de abrir uma lanchonete por perto, seria falência na certa. A Lanchonete do Tião era imbatível. Ele era um avô para as crianças, e um segundo pai para aquelas que não tinham mais pai. Os anos passaram, a lanchonete continuava famosíssima, tornara-se conhecida por quase toda a cidadezinha. A lanchonete nunca estivera tão lotada. Tião transbordava felicidade, Thiago, agora com onze anos, ia lá quase todo dia, não importava em gastar toda a mesada indo lá sempre, estaria feliz se o fizesse.
Mais anos passaram, Thiago agora tinha quinze anos, começou a levar as primeiras namoradas para a lanchonete do Tião, ele fazia questão de almoçar junto a namorada na lanchonete pelo menos uma vez por semana. Tião conhecia de cor todas as namoradas que Thiago já tivera, assim como conhecia o formato de suas mãos. Tião ficou uma semana sem atender, a lanchonete fechara por um tempo. Apenas um susto, Tião tinha ficado doente, afinal, a idade alcança a todos, e ela andava, por mais que quisesse pará-la.
Thiago agora tinha dezoito anos. A convite dos amigos, começou a visitar boates, não bebia mais tubaína, agora bebia misturas de bebidas alcoólicas com outras coisas mais exóticas. A Lanchonete do Tião começava a esvaziar. Meses depois, a lanchonete decaiu, Tião entristecera, se tornara rígido. Trocou completamente o que vendia, tentando atrair clientes, agora vendia cerveja e petiscos, o que não adiantou muita coisa. Tião decidiu fechar. Nem mesmo Thiago apareceu mais por lá. Nunca mais viu uma criança alegre, com uma mochila nas costas, entrar na sua lanchonete, sentar-se no banco, suada, e pedir: "Me dá uma tubaína, tio". Nunca mais.
Thiago tinha vinte e três anos. Lembrou-se de sua mania de criança, de visitar o Tião. Decidiu fazê-lo. A lanchonete provavelmente continuava sendo um sucesso, pensava Thiago, se chegasse lá, crianças chamavam o nome de Tião a todo momento, pedindo cachorros quentes e refrigerantes. Chegou onde era a antiga lanchonete, e viu que o local estava fechado. Perguntou para os moradores próximos.
- Tião fechou a lanchonete. Tava virando um lugar cheio de mendigo que adora encher a cara. Tião desistiu do negócio e sumiu.
Thiago ficou pasmo com a notícia. Mendigos na Lanchonete do Tião? Jamais. Queria tirar a história a limpo com o próprio Tião, lembrou-se de onde ele morava, e foi a sua procura.
Chegou na antiga casa do Tião. Havia duas crianças brincando na garagem. Chamou-as.
- Posso falar com a mãe de vocês?
A mãe das crianças saiu de dentro da casa. Não parecia ser a filha mais velha que Tião dizia ter.
- Ah, o seu Tião? Mudou-se faz uns anos. Moro aqui desde então.
Thiago estava inconformado. Queria achar Tião, custe o que custasse. Parou de trabalhar, tirou as férias que pretendia tirar no futuro, procurou de todas as formas por Tião, chegou na última casa que estava procurando, um rapaz lavava seu carro, no lado de fora da casa vizinha da que procurava.
- Com licença, o senhor conhece o senhor Tião? Me disseram que ele mora aqui do lado.
- O seu Tião? Um senhor de barba grisalha, que sempre estava com uma boina?
- Exatamente, ele mesmo! Ele mora aqui?
- Não, cara. O velho morreu três meses atrás. Dizem que nenhum parente ligava pro velho, daí ele de repente mudou-se pra cá, alguns meses depois ele morreu com uma simples gripe, como não tinha ninguém pra cuidar dele... Deu no que deu.
Thiago entristeceu. Largou Tião no momento em que mais precisava do amparo dos jovens que visitavam sua lanchonete. Precisava do carinho e da atenção deles. Tinha tentado de tudo para manter seu negócio vivo, mas falhou. Agora, Thiago jamais poderia se perdoar. Sentiu a dor que sentira no dia que perdeu seu pai, dois anos atrás. O pobre Tião agora descansava na sua eterna solidão.
|