domingo, julho 06, 2008

Épico II

Myridian e Yjar voltavam de uma caçada de dragões. Tinham conseguido inúmeros corações de dragão, utilizadas para o preparo de poções mágicas; milhares de escamas de dragão, que seriam utilizadas para a criação de armaduras impenetráveis; e voltavam para a capital Midnova, onde viviam desde criança.
O único caminho entre as Terras dos Dragões e Midnova era uma caverna, onde mineradores costumavam viver, antes dos dragões tomarem as terras da saída oeste da caverna.

- Myridian, és ainda muito novato nessas coisas de dragões. Viu que quase foste pego por dois deles?
- Exagera-te nos comentários quanto a isso, Yjar, sou muito melhor do que aparentei naquela hora. Aquilo foi apenas... Um momento de fraqueza.
- Fraqueza? Este momento de fraqueza te acompanha desde que aprendeu a usar uma espada, amigo.

Enquanto os dois caminhavam pelo túnel, Yjar acabou por cair numa armadilha. Era um buraco muito fundo.

- Droga, Myridian! Ajude-me a sair daqui.
- Não dá... É muito fundo.
- Cadê a maldita corda que te dei, Myridian? - Yjar ficava irritado cada vez mais. Tinha medo de lugares muito fechados.
- A corda... A corda... - Myridian procurava desesperadamente nos seus equipamentos, e na sua bolsa, onde carregava os espólios dos dragões.

Não tinha achado corda alguma. Botou a cabeça de volta no buraco, para informar Yjar.

- Não tem corda, Yjar!
- Como não tem corda?!
- Veja se não está com você!
- Não está, já procurei.
- Então espere! Vou procurar por ajuda!

Procurou, procurou, e não achou. Voltou pra Yjar.

- Faça o seguinte, fique aí. Irei voltar a Midnova e pedir ajuda, tudo bem?
- Quantos dias isso vai demorar, Myridian? QUANTOS DIAS? - Yjar já estava beirando a loucura.
- Um pouco mais de um dia e meio... Não se preocupe! Voltarei com ajuda, com certeza. Não irei parar para repousar.

Jogou um pouco de pão para Yjar, que agora tinha se acalmado.

- Eu volto!

Myridian saiu correndo, mas alguns minutos depois, diminui o ritmo. Começou a meditar sobre os fatos que antecederam a caça aos dragões. O rei tinha prometido uma grande recompensa para quem trouxesse mais escamas de dragão, ou qualquer outra coisa que pudesse ser extraido de um dragão. Myridian apostou com Yjar, se ganhasse a aposta, Yjar teria que se dispor a ficar um dia inteiro mendigando por um pedaço de pão, nas ruas de Midnova. Caso Yjar ganhasse, quem teria que mendigar era Myridian. Mendigar, nas terras de Midnova, era considerado o nível mais baixo da miséria que um ser humano poderia chegar.

Myridian, então, viu-se com o saco de espólios seu e de Yjar... Estava com os espólios dos dois... A recompensa era garantida.
Decidiu deixar Yjar no buraco, voltaria para o rei, e ganharia a recompensa. Semanas depois, voltaria para recolher o cadáver de Yjar, e dar-lhe um enterro digno. Então, partiu.

Já estava avistando as muralhas que rodeavam a cidade de Midnova, e uma quantidade consideravel de carroças de fazendeiros e carruagens reais entrando e saindo, a todo momento.
Myridian deu um suspiro aliviado, por estar em casa, mas então, quando abaixou a guarda, sentiu uma lâmina fria encostar-lhe a garganta.

- Hehe. Abaixou a guarda, não?
- Desde quando você...
- Acho melhor me passar o ouro, se não quiser morrer. - Era um ladrão, e se referia aos sacos de espólios.
- Não é ouro... Acha que eu levaria ouro em sacos como esse?
- Mentiroso!

O ladrão cortou a garganta de Myridian. Em poucos segundos, ele jazia morto, no gramado da planície. Quanto ao ladrão, viu o que o saco continha, ficou descontente, e adentrou-se numa floresta.
Um outro cavaleiro de Midnova achou os sacos, levou-os para Midnova, e ganhou a recompensa.

Yjar ficou no buraco, pedindo ajuda, por duas semanas. Resistiu mais do que qualquer humano. Conseguiu achar uma pequena fonte de água barrenta, na qual conseguiu sustentar-se por alguns dias, até que acabou por morrer de fome. Todos que passavam pelo buraco, ouviam o pedido de ajuda, olhavam pelo buraco, viam Yjar, e riam da cara dele.

A Idade Média não era feita só de paladinos.