terça-feira, abril 07, 2009

O verdadeiro retrato

Eu tinha um conhecido, de nome José. Era viajante. Viajava para onde lhe interessava e gostava de pintar quadros. Quando achava conveniente, os vendia – nunca indaguei como um homem consegue viver viajando à custa de quadros baratos, que era sua maior especialidade – para quem se interessasse, passando pelo comércio local. Era um artista desconhecido e arrisco dizer que seus quadros vendidos eram pendurados e exibidos em consultórios médicos ou locais similares. Vez ou outra conseguia um bom dinheiro com eles, porque eram bonitos, simples de se entender (qualquer um que visse acharia bonito), e José fazia vários numa semana. Parecia despreocupado em vendê-los, o que me fazia acreditar que ele provavelmente vivia dependendo do dinheiro de alguém que não fosse ele.

De uma maneira ou de outra, era um artista, do seu jeito peculiar. Provavelmente nunca teria nenhuma de suas obras reconhecida em algum campo da arte, mas era um bom ouvinte e narrador (o que bastava para mim). Tinha visto José poucas vezes pessoalmente, já que grande parte de nossas conversas eram por telefone (que também não eram muitas), mas era fácil notar ele estava alterado num encontro que tive com ele. Neste encontro, perguntei-lhe o que havia acontecido. Nunca o considerei um grande amigo, talvez por causa da sua ausência, mas a história que ele me contou me faz lembrar dele como um grande amigo.

José conheceu um rapaz em uma de suas viagens, na qual manteve contado por muito tempo. José nunca descreveu o tal rapaz, só dissera que se chamava Pedro. Pedro sabia que José era um artista que gostava de paisagens – a arte de José se resumia em reproduções de paisagens, mas já chegara a produzir obras de natureza-morta e retratos – e então, dada as circunstâncias, Pedro estava trabalhando em algum lugar no interior de Minas Gerais (José estava parco em descrições, na vez que me contou o ocorrido) e se comunicava com José através de telefonemas durante os fins de semana. Sabendo da vocação do meu amigo José, Pedro lhe telefonou um dia e contou que a caminho do trabalho, encontrou o que talvez fosse a paisagem mais bela que já tinha visto. José se interessou, e pediu por detalhes. Então, Pedro lhe contou com a maior riqueza de detalhes possível o que tinha visto. Dias depois, José ainda lhe ligava pedindo por mais detalhes. O seu amigo lhe contava de bom grado, e até lhe deu um endereço, em que a cobiçada paisagem se encontrava.

José parou a narrativa nesse ponto. Pedi para ele continuar. Voltou a contar a história, um pouco relutante. José contou que começou a imaginar o que Pedro tinha visto, e, somado aos detalhes que lhe foi contado, pintou o que seria sua melhor obra. Perguntei-lhe o porquê de se empenhar tanto em uma pintura de algo que ele nunca tinha visto. Ele não soube responder, mas me contou o restante da história.

Aconteceu de um dia José viajar novamente, e decidiu ir para a cidadezinha em que Pedro trabalhava. A pintura do que o seu amigo tinha lhe descrito já estava pronta, e queria compará-la com a real paisagem. Ainda tinha o endereço dado por Pedro (José não mencionou, mas creio que o rapaz já não trabalhava mais na cidade), e tentou encontrar o local. Não conseguiu. Pediu informações para os moradores, e disseram que não existia um endereço com aquele nome. Depois de tanto procurar, desistiu. A paisagem nunca existira.

Terminada a história, José me mostrou a pintura que carregava com ele. Era a mesma que lhe foi descrita por Pedro. O que estava pintado no quadro não importava, mas segundo José, a única vez em que ele se sentiu um verdadeiro artista foi quando juntou os detalhes ditos por Pedro, sua imaginação, e fez toda a composição que estava diante mim. Confesso que não era grande coisa, mas aos olhos de José, provavelmente era o que tinha feito de mais estupendo até aquele dia.

Por fim, me perguntou se eu não estava interessado em comprá-la. Pensei um pouco, e respondi que não. Aconselhei para que guardasse a pintura, mas não sei se foi exatamente isso que ele fez. Depois disso, José voltou a viajar, e nunca mais o vi. Talvez ele nunca tenha existido, também.