sexta-feira, outubro 23, 2009

Brincadeira de criança

Os garotos brincavam. Uma única e forte irmandade formada por estes garotos. Indivisíveis, tudo faziam juntos. Indivisíveis, caiam, riam, meninavam. Se brigavam, era por pirraça. Se choravam, era por birra. Exploravam o inexplorado, para simplesmente encontrar algo que valesse a brincadeira. Se um entristecia-se, os outros afagavam, e logo estavam a brincar novamente. Se algo não dava certo, simplesmente deixavam de fazê-lo, ou faziam de outra forma. Com a idéia de um, todos ganhavam.

Cresciam, com uns se indo, outros se unindo. Com a vermelhidão na face do primeiro, este desbandou-se. Aos poucos, um por um. Achavam-se crescidos, e procuravam seus semelhantes. Se brigavam, era por causa do temperamento. Se choravam, era por descobrir a vida como ela é. Uns construiam muros ao redor de si, outros perseguiam a lebre vermelha até que ela esvaísse como nevoa em forma de coração partido, e outros sonhavam. Sozinhos, em duplas, ou em bandos, permaneciam. Os pais já não eram tão grandes, mas o futuro amedrontava como um gigante. Aos poucos, as faces dos garotos expressavam preocupação. Aos poucos, abandonavam alguns, mantinham outros mais próximos e visitavam garotas, com segundas intenções.

Um a um, eles ganham as máscaras do sistema. Com elas, são integrantes da sociedade. Escondem seus medos infantis, suas fraquezas juvenis, e está tudo bem. Irritam-se. Invejam até aqueles que outrora faziam parte da irmandade. Uns garantem seu lugar submerso no Cócito. Outros se desfiguram por trás das máscaras. Outros ainda alimentam o egoísmo em seus corações. Se brigam, é porque suas verdades são absolutas. Não choram – as máscaras retêm suas lágrimas.

Brincar é coisa de criança.