domingo, julho 08, 2007

O passeio

Para João, não havia nada mais divertido (a não ser passear no cinema, talvez) do que sair com seu pai. Relação boa de pai e filho, algo que todo pai quer ter com seu filho, e vice-versa. Já estava pronto, esperando o pai terminar de se arrumar, o pai não mostrava muito entusiasmo, afinal, iam apenas na padaria. Mas para João, era mais uma caminhada incrível, conversariam sobre o colégio, sobre os jogos novos de João, e tudo que viesse a cabeça do filho. No final, João ganharia um doce do pai, e este, compraria um maço de cigarro para si. Sairiam felizes da padaria, voltariam para a casa, a mãe iria servir o desjejum, com os pães que o pai comprara. Mais uma manhã feliz.

A mãe ainda dormia, o marido a acordou para se despedir, esta beijou-o e escondeu a cara no travesseiro, chamou o filho, e saíram pela porta. O sol estava começando a se apresentar, o filho ia cantarolando, até que começou a puxar conversa com o pai.
- Pai, o senhor tem trabalho muito, não é? Quando vai tirar uma folga para podermos ir para o cinema? - Perguntou o filho.
- Não sei, filho...
- Eu estou me esforçando muito no colégio, como prometido, vou me sair bem nas provas e você me levará ao cinema, não é?
- Claro, como combinamos... Mas só se for bem nas provas.
A família de João tinha uma vida muito apertada, atolados de dívidas, e ainda vivendo num aluguel caro para eles. Por isso o cinema era sempre discutido com muita cautela.
- Pai, meu professor de geografia é chato pra cacete! Ele enche a turma de lição, e todo mundo reclama, e ele não está nem aí!
- É, filho, professor bom é assim...
João estranhou o pai, não o tinha repreendido o filho pelo uso do palavrão, como costumava fazer. A conversa continuava, o pai apenas balançava a cabeça, afirmando, ou respondendo com frases curtas. Até que João percebeu que estavam desviando do caminho.
- Pai, a padaria é pra lá, não é?
- É, filho. Mas hoje quero passar num lugar, antes.
- Tudo bem!
- E aí, pai, conseguiu pagar o armário novo?
- Não, filho, tá muito difícil, apenas troquei porque tinha risco de desabar e a gente não ia ter onde pôr roupa.
- Botava em cima da mesa!
- Não, filho, não é uma boa idéia.
O pai não achara graça da piada, de costume, fazia pelo menos um sorriso amigável às piada do filho.
Chegaram num bar, o pai entrou com o filho, sentaram-se em uma mesa.
- Filho, bem... Fiz negócio com um rapaz, amigo meu, ele vai levá-lo ao cinema. Você poderá assistir o filme que quiser, mas só não vai poder comprar nenhum doce nem salgadinho, ouviu?
O filho teve vontade de soltar um grito de tanta felicidade, na hora. Que surpresa o pai lhe armara, não é? Começou a olhar para os lados, procurando o tal amigo, então, um rapaz de barba mal feita apareceu, ele e o pai apertaram as mãos, então, o pai levou o filho para fora do bar.
- Comporte-se, ouviu bem? Ele vai trazê-lo de volta assim que a seção do filme que você quiser assistir acabar, não dê muito trabalho ao moço.
Abraçou o filho, deu-lhe um beijo, e o entregou o filho ao rapaz, este o mandou entrar no carro. Fechou a porta, e voltou a falar com o pai.
- Aqui está, o combinado. - Disse o rapaz, entregando um gordo maço de dinheiro.
- O que vão fazer com ele, agora? - Perguntou o pai, cheio de receio.
- Só Deus sabe, cara. Quem manda é o chefe.
O rapaz entrou no carro, fechou a porta, e o carro partiu. O filho olhava pelo vidro, o pai com o maço de dinheiro. Não entendeu direito, mas sentou-se, e começou a cantarolar.
Agora, o pai tinha dinheiro para pagar o armário, mais outras divídas, e ainda sobraria dinheiro para uma cervejinha com os amigos.